21 DE SETEMBRO DE 2010 | #COMPARTILHESUASMEMORIAS
Fala, Carol !

21 DE SETEMBRO DE 2010 | #COMPARTILHESUASMEMORIAS

Era de manhã. Uma terça feira. Quase primavera.

Eu havia recebido meu segundo positivo há cerca de um mês, durante minha última estada em Belo Horizonte. Estava “atrasada”, enjoando, com todos os sintomas característicos presentes há algumas semanas, mas evitava confirmar. Em BH, apoiada por uma amiga, fiz o exame. E o valor do beta foi tão alto que não tinha como ter dúvidas: eu estava grávida novamente.

Não consegui guardar segredo absoluto da minha alegria como alguns “recomendavam”. Na verdade, EU não queria guardar nada. A família e os amigos mais próximos souberam logo. Obviamente eu estava mais reservada. Ainda fazia terapia, iniciada após minha primeira perda, tão sofrida e difícil de ressignificar pela sua precocidade, pela falta de reconhecimento do outro com as perdas de poucas semanas e por toda a subjetividade de se viver o luto por alguém que não chegamos a conhecer. Mas mesmo com tantos medos, eu estava feliz, muito feliz.

Naquela manhã eu acordei normalmente. Já havia retornado pra Curitiba. Meu marido tinha saído pra trabalhar e eu estava terminando de tomar um chá enquanto ligava o computador pra continuar um projeto que tinha iniciado. Então fui ao banheiro. E veio aquele susto enorme: um borrão de sangue escuro fez meu coração disparar e eu entrei em desespero.

De novo não! Era só o que eu conseguia repetir descontrolada em meio a muitas lágrimas. Liguei para o marido aos prantos, que me pediu pra ficar calma que já estava voltando pra casa. Calma? Como? Liguei pra médica que estava me acompanhando na cidade. Ela me disse que podia me receber em uma hora. Seu consultório ficava a menos de duas quadras de casa, mas como parecia longe naquele dia. E lá fomos nós dois.

Cheguei chorando, com medo do que ia escutar. Na verdade, eu já tinha a resposta. Eu tinha sofrido outro aborto, eu tinha certeza. E com meu próprio diagnóstico eu já sofria.

Fui atendida assim que cheguei. A doutora começou a fazer a ecografia enquanto eu tentava não chorar muito e me manter calma. E então, ela olha pra mim, dá um sorriso e aquele diálogo inesquecível começa:

– Hum… agora está explicado.

– O que foi doutora?  Eu perdi de novo né?

– Não. Não é por isso que você teve o borrão. Está tudo certo por aqui…

– Tudo certo? Perguntei incrédula enquanto meu marido apertava minha mão sorridente.

– Sim, MUITO certo. Respondeu com certa ironia e um sorriso discreto.

– É que seu útero está tendo que se esticar um pouco mais rápido do que normalmente faria.

– Mas por quê? Perguntou o marido sem entender.

– Para dar espaço aos três!

A gente se olha e grita, quase junto: – Treeeeeês?  

– Sim, queridos… São trigêmeos!

Gargalhadas.

Olhos arregalados, assustados.

Incrédulos.

Felizes? Não. Eufóricos!

E eu nunca vou me esquecer deste dia. Sem dúvidas, um dos dias mais felizes da minha vida e pelo qual vou sempre agradecer a Deus por ter vivido: o dia que descobri que carregava, de uma só vez, três vidas dentro de mim.

Logo eu, tão pequena, tão metódica, tão medrosa. Eu não tinha mesmo controle de nada. Ali aprendi o quanto a maternidade agiganta, empodera e transforma. E o que vivi ali e durante todas as demais semanas desta experiência única ninguém me tira. Faz parte do que sou, é a minha história. E mesmo que o final dela não tenha sido o que sonhei, é uma história linda da qual me orgulho muito, pelo simples fato de ser uma história de amor.

Meus filhos foram amados desde esse primeiro minuto. Foi incrível senti-los crescer e se mexer dentro de mim. Foi “hard” aguentar os enjoos até o quarto mês e pouco tempo depois já parecer “estar quase parindo” de tão redonda. Foi divertidíssimo ver a cara de espanto das pessoas quando descobriam a novidade. Foi surreal fazer conta de mamadas, fraldas e trocas e sonhar, junto com o marido especialista, a logística da coisa toda. Foi especial e realmente incrível.

Em 31 de dezembro do mesmo ano meus filhos nasceram com prematuridade extrema e não resistiram ao parto. Não pude ficar com eles e como muitos sabem fiquei com o colo vazio por mais algum tempo. Hoje aceito que não eram esses os planos de Deus para eles e para mim e sigo feliz, apesar da saudade. Sim, foi doloroso demais, pesado, profundo e intenso. Mas foi como tinha que ser.

Acredito verdadeiramente que o luto precisa ser respeitado e vivido, em todas as suas fases. E quando apoiado pelo reconhecimento e empatia daqueles que nos rodeiam, uma hora faz parar de doer. Porque não sobra espaço pra dor, só sobra espaço pro amor. A gente não tem que esquecer, não precisa esquecer, não quer esquecer. Filhos são como o amor: para sempre!

Vivi meu luto da melhor forma que consegui. Eu vi meus filhos quando nasceram e pude me despedir deles. Fecho os olhos e tenho por quem lembrar, orar e sentir saudade. Fui cercada pelo amor e pude falar sobre a minha dor e sobre os meus filhos todas as vezes que tive vontade e necessidade, sem ser podada. Pude chorar. Choraram comigo. Minhas amigas grávidas não se afastaram de mim nem de seus bebês mas entendiam quando minhas lágrimas as vezes rolavam ao encontrá-los. Tive acesso a exames, pude ser assistida. Não tive respostas, mas pude investigar todas as perguntas. Recebi abraços silenciosos que valeram muito mais que quaisquer “monte de palavras”. Recebi orações, inúmeras. De muita gente querida e de desconhecidos também. Fui realmente acolhida. Cheguei a “brigar” com Deus e Ele, em sua infinita bondade, não me julgou e me esperou de volta. Precisei de tempo, fui respeitada e me respeitei.

Por tudo isso esta etapa da minha caminhada foi muito bonita e me transformou pra melhor. Mas infelizmente nem todas as mães que passam por esta dolorosa experiência tem a minha “sorte”. Por isso achei esta campanha tão importante. Outubro foi eleito o mês de apoio a perda gestacional e neonatal. E nós, mães de anjos, fomos convidadas a compartilhar nossas memórias pela lembrança de todos aqueles que partiram (muito) cedo.

Estou muito feliz por encerrar o mês de outubro com uma postagem íntima aqui neste cantinho do DECOR DA VEZ, criado para que eu pudesse compartilhar minhas reflexões pessoais sobre a vida e para a vida.

Esse diálogo do dia 21 de setembro de 2010 é uma memória muito feliz da minha segunda gestação. Ao longo do mês de outubro, muitas destas mães compartilharam suas memórias, várias delas sobre as etapas mais tristes. E elas também são muito importantes no processo de luto e superação já que mostra que não estamos sós. Saibamos ouvir e não tenhamos receio em compartilhar.

Depois que virei mãe de anjo descobri que todo mundo conhece alguma. O assunto que antes era tabu está ganhando visibilidade e isso é bom. Pode parecer doloroso falar sobre isso mas não precisa ser. A gente precisa é de informação certa, a gente precisa de acolhimento, de empatia. Você não precisa viver “na pele” nada disso pra simplesmente se importar. E isso já fará toda a diferença pra gente. Pode acreditar.

O amor cura!

15-de-outubro

Carol Alves

Você já viu esses?

E AGORA, DECOR DA VEZ?

ATÉ BREVE, GABI!

PARA BEATRIZ

DANDO VOZ E VEZ A OUTRAS “QUERÊNCIAS”

O QUE COMEMORO NO DIA DAS MÃES

BOLHAS E ABISMOS

A SAGA DO PRIMEIRO POST

O CUIDADO NOSSO DE CADA DIA

SEGUINDO O CORAÇÃO

DE DENTRO

14 Comentários

  1. CAROL Simplesmente choreiiiii ao ler esta história que conheço muito bem. Mas ao mesmo tempo e muito linda não resisti em ler até o fim. Te amo demais❤

    1. Amiga querida! Obrigada pelo amor e carinho com a minha família, sempre. Te amo também!

  2. Não tem como não se emocionar!!!

    1. Saudades de você!

  3. Apesar de conhecer sua jornada nessa epopeia da maternidade, viajei nas suas palavras, revivi alguns momentos da minha epopeia, parabéns pela coragem e pela linda forma como se expressou… Li certa vez que quando Deus te tira algo, ele não está te punindo e sim preparando algo que realmente é para ser seu…me apego nisso, agradeço a Deus pelos meus filhos…. Já pensou se eu tivesse desistido?

    1. Ainda bem que não desistimos não é mesmo, Kat! Beijos querida!

  4. Impossível não chorar,ainda mas quando a gente passa pela mesma coisa.

  5. Carol.. passei por tudo isso a dor é muito grande e insuportável as vezes. Briguei e amaldiçoei Deus várias vezes. Meu filho nasceu no tempo certo com 4. 300 kg enorme. Um bebê lindo, o mais bonito que já vi, só podia virar anjo. Faleceu com 5 dias. Não consegui ir no velório e até hoje 8 anos não vou no cemitério. Cada um tenta lidar da melhor forma, não existe receita.Nao desejo nem para ninguém

  6. Eles estão no céu cuidando de você. Para que seja forte e para que consiga passar para outras a sua capacidade de aceitar os desígnios de Deus, sem deixar de amar os que foram, se amar e amar o próximo. Exemplo de vida! ??????

  7. Que lindo Carol! Mesmo já sabendo da sua história, chorei!

  8. Oi Carol! Soube de sua história através da minha irmã. Não tem como não se emocionar. E sempre a conto para amigas que passam pelo processo da primeira gravidez… e conto a sua história tão aguerrida. Estou acompanhando o blog… te desejo muito sucesso!

    1. Oi Cintia, fico muito feliz em saber que minha história tem ajudado outras mães de anjos a seguirem. Obrigada por compartilha-la sempre e pela companhia no blog. Beijo grande.

  9. Tô aqui tentando ganhar força com seu relato. Tentando juntar os caquinhos de uma dor que faz doer o corpo todo. Depois de 4 perdas, essa, sem duvida a mais dolorosa, nos pegou de surpresa. Quase na data do nascimento soubemos da ausência dos batimentos. Mas vamos com fé! Ainda sem condições de escrever tudo que passei, mas em breve farei como você, na intenção de ajudar outras mães! Obrigada!

    1. Irene querida, sinto tanto… De verdade. Receba meu abraço carinhoso e minhas orações para que sua caminhada seja sempre cercada de muito amor. Não é realmente fácil, mas é possível seguir apesar da saudade e do colo vazio. Só o amor é para sempre. Um dia de cada vez e sempre avante. Beijo no seu coração.

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